CÉU DE CAMURÇA

 

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Ele estava a embrulhar-se por dentro de um mundo só seu. Usou papel colorido, fitas, botões e alfinetes. Dizia que cada dia tinha um jeito certo, que tons jamais se repetem e aquilo gasto no dia de ontem, resgatado nunca será.

Cantarolava e construía tudo sem perceber a quem. Uma verdadeira festa de tesoura, cola, cores, tinta e tudo mais. Ele ainda teimava em ouvir as suas velhas músicas velhas e dar os mesmos rostos às  dissonâncias, mas tudo ali era feito de um jeito todo diferente, como se tudo fosse uma eterna novidade. Cada dia, uma pauta; cada pausa, uma música.

O que é isso menino?; Ele ria-se ao imaginar o espanto de sua avó ao ver toda aquela bagunça, logo ela, artesã de mão cheia, famosa por seus tapetes;  Estou a me tornar um lugar bonito vó; Eu particularmente diria outra coisa, diria que ele estava a se tornar um lugar amplo, mas ele, se bem o conheço, ainda assim acrescentaria; Belo, habitável. E era assim que ele se enchia de novo. Tudo um tanto outro, tudo um tanto renovo, tudo seu. Quem assim fazia já não era mais menino, dizia ele. Havia aprendido que pior que o pesadelo é descobrir que se sonha sozinho.

Tudo começou quando ele resolveu arrancar algumas lembranças plantadas junto às margaridas e tirar as  que costumavam decorar aquela prateleira junto ao sol. Percebeu com espanto que no outro dia mais margaridas nasceram e o sol havia brilhado mais. Havia algo estranho. Passou a andar e observar… encontrou, então, entulhos que sequer imaginaria dentro das antigas cavernas, animais mortos a céu aberto, árvores de infância derrubadas e até algumas velhas hienas.

Entendeu, então, todo o motivo de nem sabe bem o quê. Começou a juntar tudo em algumas trouxas velhas, amarrou-as com aqueles cipós que se usam em feixes de trigo e pôs-se a limpar tudo o que via; começou por aquelas nuvens antigas que andavam empoeiradas. Trouxe terra de longe para cobrir o chão e lhe deu uma nova tapeçaria, flores. Coloriu o lago abandonado com um azul tirado de suas tantas aquarelas, azul de um azul que nunca se viu, e plantou toda sorte de árvores – pitanga, umbu e até da mais azeda das carambolas. Trouxe plantas de se pendurar em varandas, temperos para se cozinhar em panelas de barro e ventos de se bagunçar o cabelo. Silêncios de se namorar no entardecer, um riacho de água gelada e uma cortina-pôr-do-sol que ele fez questão de ser como a que vira no trem de Veloso.

Nesse dia ele ficou exausto, viu que precisava tirar a tarde para si e fez um piquenique. Deixou sua roupa num canto e pôs-se a brincar pelado na água. Pulou das pedras várias vezes, mergulhou o quanto pôde até quase não mais ter fôlego e nadou, nadou até cansar, costurando, assim, de alegria as margens de todo o  lago. Até hoje ninguém sabe quem deu vida a quem.

O trabalho ainda há que se continuar, é preciso retirar alguns tons pastéis que ainda estão nas estradas, é preciso soltar alguns canários e colibris pelos campos e plantar o pé de damasco junto à janela de seu quarto. Há que se trazer ainda alguns insetos para que as flores também se alegrem e encomendar um tipo de chuva qualquer para que caia tranqüila no fim da tarde. Há ainda alguns vales e campinas que nem foram tirados das caixas e uma coleção inteira de móbiles feitas com nuvens e estrelas para serem penduradas por aí. E aquelas velhas hienas, bem, nem foi preciso se preocupar com elas. Quando não há morte dentro de si aqueles que dela se alimentam também se vão.

Ele está a fazer com que cada detalhe viva feliz por ser único, ainda que não o último. O belo descobrirá que a incompletude é um jeito sábio de esconder-se da multidão, de poder reinventar-se, de ter-se num tempo próprio. Por isso tanta falta de pressa. Por isso a falta de tanto.

Por ora, seus risos são a luz bastante para todo aquele verde; e o seu casaco camurça, céu e abrigo suficiente. O que ele sabe é que uma paz sussurra em seu ouvido toda vez que ele deita em um daqueles pastos verdejantes; Nada mais lhe preocupa, nada mais lhe demove.

Por ora, tudo ali é o que lhe basta. Nada lhe falta, jamais faltará.

João Romova


The Set Of Office and School Suplies | Alena Safronova

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12 pensamentos sobre “CÉU DE CAMURÇA

  1. Me bateu uma curiosidade de saber quem comentava em meu canto, então corri para cá. “Menino de Deus”, que lindo o teu texto.
    Esta “composição” interna em metáfora com o externo deu um bom resultado.

    Deixa eu voltar?

    :)

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  2. João do Céu! Rs. Esse texto me lembrou uma Jaya que se perdeu em meio às várias que me habitam, hoje. Você, com essas letras, me puxou de volta para uma estrada pincelada, onde todos os golpes na aquarela são coloridos do jeito que quero.

    A história é sonho. Finda fazendo carinho na alma, e eu ando precisada disso. Obrigada?

    Um beijo é teu, hoje.

    P.S.: Essa história de sotaque baiano, é porque dividimos um estado em comum? Você tá aoooonde, João? Rs.

    P.P.S.: Um pedido pendente, seria a frase? É tua, moço. (:

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  3. Talvez João, fizeste esse teu livro cinza para que as cores pulassem dele. Todos os seus mundos, os mundos de Maria, os mundos do pequeno, os mundos de João, são coloridos e adocicados. E têm preenchido minha alma, minha vida sobremaneira. Venho sedenta ao teu mundo, João, para ver quais cores separou para mim. As de hoje são muitas. São mais coloridas e menos quentes que as cores de Maria, mas são mais calmas. Eu deitei ali, e fiquei vendo o que construíra. Foi bom, João..foi bom.

    Miss

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  4. Nossa, delícia de texto! Vc escreve muito bem! Obrigada pela visita ao meu humilde blog!
    Estarei sempre por aqui.
    Beijokas

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  5. Vim agradecer, João. E saiba que recíproca é pra lá de verdadeira, porque vir aqui tem se tornado uma rotina gostosa de seguir. E esse texto? Você fez bonito demais. Descreveu tão bem um tanto de coisa aqui de dentro. Fui lendo como quem não quisesse que as palavras terminassem.

    O que mais ficou guardado, dessa vez: “Havia aprendido que pior que o pesadelo é descobrir que se sonha sozinho.” – Um dia a gente aprende né? E se dá conta que aprendeu. Ainda teimo em sonhar sozinha, por vezes.

    Beeejo!

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