Talheres

AQUARELA Watercolor-Elga-Dzirkalis-The-Light-Series-Anna-By-The-Window-04A mesa ficou do mesmo jeito, colocada sem pressa. Os copos gastos, os pratos antigos. Cada talher em suave lembrança enquanto as olheiras dela entardeciam. Não era uma dor que lhe fazia falta. Era a franqueza que arrecadava sorrateiramente cada um dos seus sentimentos. Eles, que mal haviam chegado, agora eram vazios. Ela pensava; Mandou-me ir. E não me deu nada nas mãos; Uma mecha de cabelo, uma camiseta com perfume. Nada. Enquanto terminava o jantar falava das suas plantas como quem fala dos destinos. Tudo era turvo. Tudo lhe era traiçoeiro. Assim como os lenços, que enquanto se tornam consolo não deixam de revelar a fotografia da ferida. Ela tinha esperança de que os dias todos caberiam naquele único instante. Que seria possível instilar o tempo e diluir a ausência. Sentir o eterno e esquecer o amanhã. Ficou a porta aberta e a luz apagada. Terminou de colocar a mesa e aguardou que todas as cores sumissem. O laranja do final da tarde costumava se retrair pela fresta da janela. Tal qual ela. Ela tinha esperança de que os dias todos caberiam naquele único instante. E coube.

João Romova


Anna by the window | Detalhe da aquarela de Elga-Dzirkalis

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