Arabesco

Aquarela - Blue Butterfly - Thracey Waghorn

Uma borboleta entrou pela janela, sentou em minha cama e me contou sobre os arremates da vida. Enquanto eu olhava para as paredes decoradas de estranheza, ouvi ali as palavras da robustez coberta de fragilidade. Naquele par de asas eu, perplexo, não entendi o que vi. Ameacei me emocionar. Falei das sombras dos que partiram, do silêncio que ficou como verniz em minhas roupas e de como já não conseguia acordar e ver os corvos no quintal. Falei das feridas e das tantas pausas. Falei dos tons de terra.

Ela ouviu tudo. Contou que mais do que se alimentar das flores é preciso refugiar as cores. Esperei que dissesse mais. Que pudesse volver a história, colocar pontos onde haviam textos desfeitos e tantos parágrafos inacabados. Esperei que mostrasse ser mais que um vulto. Não houve troca de palavras, tentei guardar a pulsação, um som. Nada. Às vezes é preciso perder a alegria para descobrir a imensidão da paz.

A noite tinha chegado e eu tênue em meus frágeis argumentos. Não dedilhou nenhuma réplica e com suas notas me desfez do cárcere. Ela voou como se fosse uma melodia de Debussy e, sem pressa, deixou comigo todas as suas cores.  Aceitei minhas canetas vazias e, resignado como um adorno, me rendi.

João Romova


Blue Butterfly | Aquarela de  Tracey Waghorn

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