Margaridas

AQUARELA - Linda Griffin - daisy

Ela se aquietou enquanto todos dormiam. Recolheu suas tesouras, sua cesta de penduricalhos e, cuidadosamente, terminou de cobrir seu abajur com tecido. A estampa de margaridas ela escolheu por acaso. Testou o efeito da luz em seu quarto e sentiu o tom suave e morno. Colocou seu roupão, deitou e ficou ali, imaginando sua casa sem teto. Não era novidade que ela gostava de andar pela casa como se realmente fosse possível olhar para cima e ver o céu escuro, repleto de estrelas. Era a sensação que ela gostava de ter. Ser pronta, mas desfeita para um novo sentir.

Coisa vinda de criança. Cansou de subir em árvores e se esconder no telhado. Carregava um ou dois brinquedos, um punhado de bolachas, sua garrafinha com água e toda a sua intrepidez. Lá sumia e lá se encontrava. Talvez tudo isso fosse a sua resposta branda à vida, que cobrava dela ser ao mesmo tempo flor e vaso, plateia e palco. Grandeza demais para se caber no corpo de uma menina. Por isso ela gostava tanto de desenhar todas as suas aventuras no ar usando apenas um dedo. Era preciso mais até do que as cores. Ela era movimento. Por isso ela encenava pra si mesma peças teatrais inteiras de olhos fechados. Era preciso mais até do que espaço. Ela era silêncio. Cruciante, mas em inteireza de sinfonia.

Ela sabe que guarda um pouco daquela menina, mas agora, sendo mulher, carrega no lugar dos seus pequenos tesouros suas marcas e argumentos. O que lhe parecia incerto tomou um lugar confortável em todas as coisas. Com o tempo ela faria como fez com seus brinquedos. Deixaria esquecido num banco, debaixo da mesa ou num muro qualquer. Deixar cada um deles para ser mais. Enfim percebeu que, assim como em seu abajur, é preciso cobrir as memórias com flores e quietude.

João Romova


Daisy | Aquarela de Linda Griffin

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Um pensamento sobre “Margaridas

  1. Tenho sido negligente com você, me arrependo totalmente de não visitar seu blog. Tudo aqui me faz melhor, estranho né? As vezes eu acho engraçado essas coisas de uma pessoa estranha te captar sem querer, de descrever seus passos, mas acontece.

    Um beijo e saudades.

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