ROTAS E LINHAS
Eu não sei muito bem o que ando sentindo… talvez seja um tipo de descuidado, de desleixo, talvez.
Daqueles que insistem em nos tomar quando entramos em casa cansados e, para mostrar que fomos esvaziados pelo dia e afazeres, vamos deixando o sapato e as meias pelo caminho, os livros sobre o sofá, as lembranças no tapete, as raivas no portão.
O que ando sentindo, não sei bem o que acontece, parece um salto, um parto, um caos… mas tudo tão suave, com gosto de familiaridade. Um prazer que me faz infinitamente dizer quando bem quero… depois eu me arrumo e, em seguida, poder esquecer o que eu mesmo disse. Talvez o que eu esteja sentindo seja uma dessas despreocupações que a gente só sente quando abraçamos quem amamos e, não sabemos como, sabemos que somos amados de volta. Como se, por instantes, tudo pudesse sumir, ser esquecido e todas as outras coisas do mundo pudessem ser desabraçadas por nós. Talvez o que eu sinta seja uma indiferença, uma leve irresponsabilidade, talvez não.
Tenho andado pelas ruas sem me preocupar com a correria dos carros e já nem tenho caminhado pelas calçadas pensando em quem eu posso encontrar. Já não ligo para as buzinas e não me irrito com as motocicletas. O único som que me importa é o meu silêncio. Andando, olho para meu relógio, para o caminho, para os meus passos e devolvo a todos a minha mais inevitável risada. Por poder ver a hora, os outros, rir de mim. Porque ainda que haja a mediocridade do cotidiano – e esta andou comigo de mãos entrelaçadas por anos – me pego tecendo surpresas. E a última delas é que já não espero mais por aquelas seis letras.
Eu faço compras, eu pago minhas dívidas, satisfeito como quem anda na chuva sem se preocupar com o que virá. Eu vou ao banco, vou à farmácia, passo na padaria e guardo todas as sacolas. Canto trechos, canto música… tantas quantas o meu coração pedir. Porque agora eu sou todo de Latika, dia e noite, e o quanto mais ela quiser. Enquanto isto, vou arrumando a sala, o quarto e organizando os meus papéis.
De longe, sem que eu me perceba, vou me acompanhando. Me observando e, em cada passo… tirando fotos. Muitas. Para que ao chegar em casa eu me mostre a mim mesmo, por onde andei e que meu sorriso voltou a ser aberto, que o meu olhar é vivo outra vez. Sem motivos terceiros e muito menos secundários. Eu mesmo me sacio.
É bom matar a saudade de me ver assim. Agora sou hóspede onde antes fui família, sou mundo onde antes fui casa, sou libertação onde antes fui paciência. E hoje, eu mesmo sentencio. Rabisco meu extrato, limpo a carteira, escrevo um texto, lavo minha roupa. Vejo minhas velhas xícaras e bebo nelas os rascunhos do antes menino. Levo fruta para o trabalho, preparo o meu café, compro um tênis, ando de bicicleta. Eu rabisco mais um caderno, uso um novo perfume, bagunço outra gaveta, faço ela ter vida outra vez. Me desfaço das malas velhas, me olho no espelho e, enfim, me converso. Eu assumo minha amizade com a agenda, que preciso respeitar mais o meu celular e que gosto de brigar com a síndica. Agora eu me divirto vendo qualquer uma perder pra mim nestas brincadeiras que não foram feitas pra meninas.
Assim eu vou. Ser saber bem para onde ir, mas passeando dentro das minhas palavras, onde nunca antes fui tão bem acompanhado. Talvez seja isso mesmo o que eu sinta… um não saber literário do que anda escrevendo a minha própria vida.

Em vez de… | foto de Nika | http://olhares.uol.com.br
Latika’s Theme | Música de A. R. Rahman


imprimi o texto, coloquei dentro da minha agenda e tenho lido, relido. tentando extrair até a última gota.
sem mais.
miss disse isso em setembro 6, 2011 às 11:03 pm
belíssimo!!!! feliz em saber que vc está em paz, joão!
Sofia disse isso em setembro 8, 2011 às 11:43 am
Li seu texto no dia em que foi escrito. Acompanho seu espaço pelo reader. Toda e qualquer palavra que você solta, eu furto o sentido para mim. Porque desde que cheguei aqui pela primeira vez, aprendi a fazer assim. Sem permissão. Já tem muito daqui em minha composição.
Andávamos em silêncio. Eu, você. Aí chega setembro, toda essa pressão para que ele anuncie flores e eu sorri, ao te ler, dia primeiro. Porque a mim, me basta isso. Me basta esse punhado de palavras que me deixaram comigo. Fui lendo você e me derramando. No final, era tudo uma coisa só.
“Talvez o que eu esteja sentindo seja uma dessas despreocupações que a gente só sente quando abraçamos quem amamos e, não sabemos como, sabemos que somos amados de volta. Como se, por instantes, tudo pudesse sumir, ser esquecido e todas as outras coisas do mundo pudessem ser desabraçadas por nós.”
Amanhã, sexta-feira, estou literalmente indo viver esse trecho acima. Pegar amor pra mim, derramá-lo por lá. Lá pra onde eu vou, tudo sempre transborda. Todo mundo sempre segura, entrega. Vou desabraçar o que anda pesando. Vou me lembrar de lembrar de reler esse texto pelo menos uma vez, a cada mês.
Tudo isso que eu disse, usei como desculpa para não falar das saudades. “É bom matar as saudades de TE ver assim.”
Obrigada.
Jaya Magalhães disse isso em setembro 8, 2011 às 7:36 pm
É um daqueles que quando releio depois de muito tempo me toca mais do que da primeira vez. E eu culpo a música por me tornar tão emotiva. Abraço, Romova.
Periwinkle disse isso em fevereiro 2, 2012 às 6:15 pm