LAMA
Ele ficaria lá para ver. Para testemunhar o horror e o espanto outra vez – e, todavia, toda aquela falsidade. Não perdeu tempo crendo ser isto uma certa falta de nobreza. Ignorou suas outras rotas e escolheu exatamente isso, ficar. Não houve constrangimento, não ficou sensibilizado, ainda que isso viesse a ser falta de gentileza. Dane-se, pensou. E Ficou. Ficou porque lhe aprouve sentir na alma o cheiro de lama. Ficou, ainda que fosse necessário ter um cobertor feito de pedras e raízes. Ele e lugar se tornariam ninhos.
Aqueles que passavam não perceberam que, apesar de tudo, ele estava se sujando de novidade. Outra vez.
E riram. E duvidaram. E esqueceram. Mas ele não. Ele sabia que logo o desencanto viria servido como o seu chá preferido. Era questão de esperar a noite chegar. De tempo. De paladar.

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Foto | Pé descalço e raíz | Miles


Texto muito bom. Li e reli várias vezes. É um texto pequeno porém profundo. O ‘dane-se’, o ‘se sujando de novidade’ e o ‘desencanto viria servido como o seu chá preferido’ são trechos que me prenderam muito a atenção. Deve ser porque de certa maneira adotei um modo de enfrentar as coisas que nunca havia praticado antes. Aprendi a bater de fronte com as situações, sem me importar com o que viesse a acontecer. Procurei me tornar novidade e me alimentei das respostas que obtive. De certa maneira me enxerguei no texto. Isso faz parte de certo egocentrismo que possuo. Mas o texto não deixa de ser bom se eu não me colocar em sua linha. O texto é bom por ele mesmo. A prova é que eu poderia ler mais várias vezes que ainda haveria coisa nova para decifrar.
Maxwell Writins disse isso em março 21, 2011 às 1:08 am