RIDÍCULOS DE HELENA

Lizemetsger

Helena já não suportava nada mais que fosse implícito. Não que sempre tivesse gostado de tudo escancarado. Dane-se as entrelinhas, era assim que ela agora queria tudo: na lata, na cara, nu, exposto. Nada com firulas, laços ou maquiagem. Nada desses nhem-nhem-nhen’s que a gente cansa de ver por aí, enchendo esses relacionamentos de bosques e praças: ocos e duradouros.

Helena foi precoce, por isso chorou mais que todos. Teve nas dores uma forma de lembrar quem ela era, mulher. Chorou seus partos, chorou suas partidas. Suicidou-se em tudo, pariu-se em cada luto. As dores que não conseguiu vencer simplesmente deixou que fossem, há dores na vida que não se explicam, não foram feitas para se caber em gente.

Helena foi exaurida de todas essas aparências e pinturas. Ela bem que se agarrou a cada uma delas, mas viu todas irem embora. Mancharam, mofaram, escapuliram, uma a uma. Gritou pelo nome, fez cena, esquete, escândalo e barraco. Bateu panelas, bateu o pé, mas foi tudo em vão. A vida foi inflexível, e ela, todavia, foi ainda mais. Sobreviveu a tudo. Orgulhosamente ela sabia disso,  sua língua pedia o amargo, o levemente ácido. Assim como todo o seu corpo.

Helena nunca havia negado, já tinha sido dessas meninas do tipo rosa-e-strass, mulherzinha demais, fragilzinha e o caramba. Mas passou todos os ridículos que lhe cabiam. Pediu seu melhor amigo em namoro – e levou um não; foi vista nua pelo apartamento da frente – porque esqueceu sua toalha; e emudeceu-se em plena festa – quando chamada como oradora. Foram carões que a fizeram aprendiz das lembranças, a olhar com diversão o passado, a rir-se no sofá de suas novelas-tragédias e a ver, com empatia, até mesmo os seus próximos ridículos.

Por isso ela era assim, feita meio filósofa, meio reacionária; Todo mundo precisa passar por ridículos. É bom passar vergonha na cara, gaguejar em público, falar de vez em quando o que não se deve. É assim que nascem os fortes, os caras-de-pau, os valentes e os heróis. É assim que nascem os poetas, os palhaços, os verdadeiros amigos. Os que passam pelos seus ridículos são os que enfrentam a vida, enfrentam a entrevista de trabalho, pesquisam os preços e tem a cara dura de ainda fazer pechincha. São os que se tornam amigos do garçom,  conseguem dar o cano no flanelinha e fazem caretas por trás do professor. Coisa normal é ter um pouco de vileza no próprio caráter, Helena não via mal nenhum nisso. Até mesmo uma certa libidinagem. Isso faz qualquer um ser mais gente, mais humano, mais saudável, até. Era o que ela dizia a qualquer um que arriscasse saber sua opinião, os livros e os filmes  se encharcam de valor, os conselhos se vestem de sentido. É assim que honramos os anos de nossa vida.

A frase podia até ser clichê, slogan de auto-ajuda ou outra coisa do tipo, Helena mesma, pouco se importava. Sua filosofia, sua procriação e seu dia-a-dia se resumiam no que dizia todo dia ao acordar, toda vez que ela ameaçava se acovardar; Vai Helena, levanta. Tenha juízo e passe o seu ridículo.

joaoromova2

Foto | Lize Metsger

Texto publicado originalmente em setembro de 2009

~ por João Romova em dezembro 2, 2010.

14 Respostas to “RIDÍCULOS DE HELENA”

  1. Acho que eu gosto dessa Helena!
    Como o ridículo as vezes é também tão imprevisível, o melhor mesmo é fazer como Helena…

  2. O ridículo é tão amigo do amor, que eu nem sei, mas ando extremamente ridícula. E abusada. Absurda. Repetitiva e doce.

    O texto é dos melhores que já li aqui.

    Um beijo.

  3. Nem sei expressar o quanto que vi de mim em Helena.

    (nem o quanto o seu texto foi ‘colo’ para mim)

    beijo,
    miss

  4. “…os conselhos se vestem de sentido. É assim que honramos os anos de nossa vida”.
    … penso que cada um de nós, digo aqueles que vestem os conselhos e princípios de sentido, tem um pouco de Helena…
    Os Ridículos de Helena parecem nortear a vida a um rumo nada esperado, mas merecido.
    Parabéns pelo texto, um dos melhores que já li.

    Ass.: Quem antes era letra-sangue, agora é vermelho-vivo.

  5. João.
    O texto ficou excelente!

    Beijos pra ti!

  6. Preliminarmente, aproveitando o espírito franco-sem-nhem-nhem-nhem-”helênico” desta prosa, deixo duas observações prementes:
    1 – aquele neurótico do teu amigo é muito chato!
    2 – essa Helena da foto é muito bonita!

    Feitas as considerações necessárias, passo ao que interessa: “Coisa normal é ter um pouco de vileza no próprio caráter, Helena não via mal nenhum nisso. Até mesmo uma certa libidinagem.” E como é deliciosa a vileza em porções terapêuticas, não?!

    Pensamentos “giratórios” (sim… eles rodam em minha cabeça) me acometem diariamente, impedindo as consclusões sobre a devida amplitude da vileza na minha formação cristã.

    Algém pode me ajudar?

  7. Então nasceu uma Helena que sabe viver. Que bom, nunca é tarde para aprender a fzer isso. :)
    Adorei o texto!!

    Beijos, João.
    Grata pela visita.
    ps: quanto ao conto de Saramago, ainda não li, mas é exatamente o que eu vou fazer agora. Espero gostar.

  8. me vi em vários ridículos de Helena… e, seguindo seu conselho, aprendi mais alguns com ela!!

  9. ué, repetiu texto?

  10. E tá faltando coisa aqui, não tá? Oxe.

  11. Mas que doçura esse texto (:
    Amei mesmo.

  12. João, sinto que sua Helena ( que no grego significa ‘LUZ’ ), tem um pouquinho das grandes Helenas de Manoel Carlos, e do grande poeta musical Chico Buarque: “Quando eles se entopem de vinho costumam buscar um carinho de outras falenas; Mas no fim da noite, aos pedaços, quase sempre voltam pros braços de suas pequenas, Helenas.” Helenas essas, que mesmo fortes e guerreiras, sabem o momento de serem frágeis e sensíveis.
    Forte abraço!!!

  13. Olá, tudo bem?
    Por favor, TODOS OS TEXTOS DESSE BLOG SÃO MEUS http://danilocechinatto.blogspot.com/
    ME AJUDE! DEIXE UM COMENTARIO PARA QUE O MESMO SEJA EXCLUIDO.
    PLAGIO É CRIME, E VC COMO ESCRITOR DEVE ME ENTENDER!!
    OBG, LUARA!

  14. Parabéns mais uma vez, o blog está sempre atualizado

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