BEATRIZ EM LÍRIO…
Beatriz saiu do trabalho e passou na floricultura. Comprou umas poucas flores para colorir a sala; Você pode separar dois desses lírios pra mim?; Chegou em casa e procurou um jarro de água qualquer. Encheu calmamente com água, sentou, apagou as luzes e ficou olhando para todos aqueles tons se perdendo no escuro. Sentiu vontade de chorar.
Não acendeu as luzes, pegou um cigarro e fumou. Dois, três, quatro… até que sentiu um desejo estranho de apagar o último deles na palma da mão. Era uma vontade estúpida, mas real. Queria espelhar no corpo o que ela só escondia na alma. Cicatriz, calor e cinzas. Doeu absurdamente.
Ligou a televisão e passeou pelos canais com sofrimento: novela imbecil, noticiário local, documentário, artista brasileiro, final de um filmezinho chavão. Parou e, ainda que se reprovasse por aquilo que iria fazer, ficou lembrando de todos os detalhes de que não precisava, de que não devia. Ela tinha mesmo esse costume, de se fazer burra e frágil para si. Uma espécie qualquer de sabotagem, de ser incestuosamente desleal consigo mesma. Era como ter prazer ao experimentar uma bebida forte, ao comer coisa amarga. Talvez porque desconfiasse. Apenas cruas realidades são capazes de forjar novas ingenuidades. E por isso ela caminhava para o inevitável. Para o sangrento. Para o dolorido. Pus.
Todos sabiam, ela não queria viver sempre o mesmo, esta seria a maior desventura para alguém como ela. Pagaria a sua dívida com o mundo. Seria forte, atriz com todos. Seria estúpida, falsa com tudo.
O marido não demorou. Chegou cansado. Ouviu de longe os passos arrastados, se refez na cadeira de balanço e, assim que ele abriu a porta, deu-lhe um riso por conveniência. Levantou da cadeira, abraçou-o rapidamente e logo começou a preparar algo para ele comer. Contou por cima as coisas que fez durante o dia e, ao final, deu-lhe os remédios para o coração. O barulho das panelas e do fogão preenchia a ritual e, enquanto isso, ela se submetia a ouvir aquelas velhas frustrações dele com o patrão e as narrativas exageradas das injustiças que sofria. Ela estava cansada. Dessa vida rotineira e vazia. De si. Cansaço sobre cansaço.
Manipular seu cotidiano, seu marido e seus próprios sonhos, porque não aguentava mais ter tristezas florindo dentro de si. Lírios no escuro. Cuidar e ouvir já não era por ser nobre ou porque imitasse as qualidades da mãe, mas porque era preciso colocar tudo em jogo para manter apenas o que não se pode perder. Sentir a vida é poder ameaçá-la, abrir mão da necessidade de tê-la. Pois só quem sobrevive às tragédias consegue reconhecer o mistério.


Nossa… deu pra tocar essa dor.
Naza disse isso em outubro 20, 2010 às 11:11 pm
A beleza da tristeza é, de alguma forma, contagiante demais.
Hannah disse isso em outubro 22, 2010 às 10:24 pm
‘Jão’, quanto tempo hem? Não muda, sua fronte pensa, sua mão escreve, sua mão prescreve, os tempos futuros. Beatriz só queria ser feliz.
Thiago disse isso em novembro 3, 2010 às 11:58 pm