MUNDO EM PAPELÃO

aliso viejo

Guardou toda a alegria que houve pra si. Mal cabia numa caixinha. Mas era toda sua, carregada, pura. Não caberia ali muitas coisas além de uma velha foto de sua mãe, um botão, uma flor seca, um lápis já gasto, o garfo preferido de seu pai e algumas lembranças desenhadas. Percebeu tal grandeza quando arrumava seu quarto. Entre tanta sombra e caos, lá estava. Num cantinho da gaveta. Não sentiu qualquer tipo de dor, ou desapontamento. Sentiu-se levemente orgulhoso por ter, em poucas coisas, uma doce alegria. Todo o seu mundo em uma caixinha de papelão.

Mexeu com a ponta dos dedos cada um dos objetos, olhou cada um deles, limpou com movimentos leves, assoprou a poeira. Doar-se à felicidade é simples, pensou. Guardou tudo de novo e agradeceu a generosidade da vida, por caber-se intensamente nele. Quem muito lugar tem dá ao que não é essencial o direito de ser posse; ele precisava apenas disso, do que tinha. E viveu o que acabara de ver. Pleno e examente, recipiente.

joaoromova2

São os organismos que morrem, não a vida | Deleuze

~ por João Romova em Outubro 30, 2009.

5 Respostas to “MUNDO EM PAPELÃO”

  1. Querido João,

    você nunca fará idéia de como esse texto é meu. e de como ele está dentro de mim, agora.

    Obrigada por escrever o que eu penso.

    Um beijo,
    miss

  2. É realmente muito bom, num dia aparentemente qualquer, lembrar, só em ver o simples que anda sempre tão calado e passa despercebido por tanto tempo, a vida que a gente consegue carregar.
    Gostei daqui, espero voltar :)

  3. gosteeei *–*

  4. Papelão, frágil, inútil, pequeno, mas… inteiramente de seu dono. Grande, forte e necessário… até demais.
    Um dia talvez se rasgue, se perca, se quebre. Mas, ele existe, é palpável, tangível…
    Todos o têm, mas poucos o conservam. Poucos mesmo…Só aqueles que lembram e escrevem sobre ele…
    Grande sacada. Grande texto. Grande pessoa.

    Grande Abraço…

    emvermelho

  5. Minha caixinha é de madeira, eu pintei-a de vermelho e fiz um desenho no estilo mangá, na tampa. Ela não tem tranca e qualquer um pode ver. Sabe, até gosto quando veêm, é um jeito de descobrirem o que realmente me importa.
    Fotos dos meus cachorros, muitos bilhetinhos que eu escrevi e nunca mandei, bilhetinhos que recebi também, é verdade. Imagens de revistas : tipo Humburguer, Suco de futa com guarda-chuvinha, foto de cidades, etc.
    Tem tambem uma lista enorme dos livros que quero ler e dos que emprestei e ainda não me devolveram. Tem um CD, ele tá riscado, nem deve funcionar, mas antes, quando ainda era em ordem, era o meu preferido, com as melhores musicas de 2001. Tem passagens de viajens e ah, o mais importante, tem assinaturas de todos que já conviveram ou convivem comigo. Faço questão que assinem, que é pra que eu não esqueça que foram importantes e aí passar na rua e não reconhece-los.

    Eu adoro aqui, pena não poder estar muito.

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