CALIGRAFIA A DUAS MÃOS

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Duas colheres de pó, açúcar e água fervente. Ali, em frente a um coador de pano e o revigorante cheiro de café, aspirei aquele aroma e o senti entrando e se abrigando em mim, levando embora todos aqueles sentimentos de um dia ruim, deixando apenas seu gosto forte, marrom. Eu o queria armazenar para sempre, porque ali parecia estar tudo o que eu precisava naquele momento. Nem tudo. Na realidade o café me confortaria pelas horas à frente que prometiam passar de forma silenciosa.  Apenas eu e eu, naquela varandinha aconchegante, mas repleta de histórias. Sentada, respirando o universo que construí ao meu redor eu vejo marcas, tintas, madeira, flores e tecidos. E não havia como negar, com um pequeno gole e um sorriso no canto da boca era inevitável perceber como aquela varanda estava repleta de mim. Repleta dos meus ais e dos meus prazeres colecionados. E aquela brisa? Parecia querer dizer algo ao trazer o perfume dos jasmins presos às treliças. Foi assim que me lembrei, de um modo quase secreto, e leviano até, daquela música que me trouxe as memórias mais confusas e alucinantes. Memórias de um proibido esquecer. De um proibido querer. Eu podia ver e sentir aquela cena novamente como se tivesse acontecido ontem, quando sentada naquela campina de grama baixa – e verde brilhante – deixei o tempo acolher meus pensamentos. Deixei aquele cenário ditar o meu futuro e foi, então, que me vi. Em um flashback, um momento sóbrio. Sou artesã do que vivo, pontos e laços, eu talho o meu viver. Lixas ou pincéis, eu decoro meus momentos. E hoje, um dia solitariamente agradável, era dia para ter em meus olhos, com franqueza e gratidão, aquilo que se tornara a caligrafia de minhas mãos.

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João Romova e Miss Demoiselle tem idades completamente diferentes e, como não bastasse, estilos também. Mas num dia desses, comuns demais para qualquer um que ouse escrever, resolveram juntar suas letras. Enquanto um trocava as vírgulas, outro acentuava, um cortava os t’s, outro coloca os pingos nos i’s. Nessa história de trocarem vogais e consoantes, brincando de criarem novas palavras, deram-se a si mesmos  o que tinham, suas palavras. E assim nasceu um texto
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Foto de Cláudio M. Lopes

~ por João Romova em março 29, 2009.

6 Respostas to “CALIGRAFIA A DUAS MÃOS”

  1. Ficou sensacional. Seu layout e a nosso obra.
    A pena menor é a minha.

    Abraços,
    miss

  2. Também gostei! (menor? Eu diria a mais ágil!)

  3. Cadê os leitores do Grafite Romoviano?

  4. Obrigada pela visita. Que honra ter gostado.
    Honra por que a caligrafia de vocês está perfeita.

  5. O texto é um trabalho de quatro mãos delicadas, sagazes e elegantes. O resultado é essa bela construção de imagens finas, dignas e nobres.

  6. [...] Li suas letras, para senti-lo uma última vez, porque seria diferente depois disso. Engoli cada uma das suas palavras, tocando naqueles rabiscos. E encontrei a seda que tecemos juntos, a quatro mãos – a duas penas. [...]

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