CALIGRAFIA A DUAS MÃOS

Duas colheres de pó, açúcar e água fervente. Ali, em frente a um coador de pano e o revigorante cheiro de café, aspirei aquele aroma e o senti entrando e se abrigando em mim, levando embora todos aqueles sentimentos de um dia ruim, deixando apenas seu gosto forte, marrom. Eu o queria armazenar para sempre, porque ali parecia estar tudo o que eu precisava naquele momento. Nem tudo. Na realidade o café me confortaria pelas horas à frente que prometiam passar de forma silenciosa. Apenas eu e eu, naquela varandinha aconchegante, mas repleta de histórias. Sentada, respirando o universo que construí ao meu redor eu vejo marcas, tintas, madeira, flores e tecidos. E não havia como negar, com um pequeno gole e um sorriso no canto da boca era inevitável perceber como aquela varanda estava repleta de mim. Repleta dos meus ais e dos meus prazeres colecionados. E aquela brisa? Parecia querer dizer algo ao trazer o perfume dos jasmins presos às treliças. Foi assim que me lembrei, de um modo quase secreto, e leviano até, daquela música que me trouxe as memórias mais confusas e alucinantes. Memórias de um proibido esquecer. De um proibido querer. Eu podia ver e sentir aquela cena novamente como se tivesse acontecido ontem, quando sentada naquela campina de grama baixa – e verde brilhante – deixei o tempo acolher meus pensamentos. Deixei aquele cenário ditar o meu futuro e foi, então, que me vi. Em um flashback, um momento sóbrio. Sou artesã do que vivo, pontos e laços, eu talho o meu viver. Lixas ou pincéis, eu decoro meus momentos. E hoje, um dia solitariamente agradável, era dia para ter em meus olhos, com franqueza e gratidão, aquilo que se tornara a caligrafia de minhas mãos.
________________________________

Ficou sensacional. Seu layout e a nosso obra.
A pena menor é a minha.
Abraços,
miss
MissDemoiselle disse isso em março 29, 2009 às 8:54 pm
Também gostei! (menor? Eu diria a mais ágil!)
joaoromova disse isso em abril 7, 2009 às 4:08 pm
Cadê os leitores do Grafite Romoviano?
MissDemoiselle disse isso em abril 8, 2009 às 1:03 am
Obrigada pela visita. Que honra ter gostado.
Honra por que a caligrafia de vocês está perfeita.
lirismo bem comportado disse isso em abril 13, 2009 às 1:38 am
O texto é um trabalho de quatro mãos delicadas, sagazes e elegantes. O resultado é essa bela construção de imagens finas, dignas e nobres.
O Imprevisivel disse isso em abril 13, 2009 às 2:12 am
[...] Li suas letras, para senti-lo uma última vez, porque seria diferente depois disso. Engoli cada uma das suas palavras, tocando naqueles rabiscos. E encontrei a seda que tecemos juntos, a quatro mãos – a duas penas. [...]
A morte de um amigo. « Letras e Flores disse isso em janeiro 19, 2012 às 11:08 pm