
Entrou para tomar banho, colocou sobre a pia a toalha e deixou a luz assim, apagada. Enquanto tocava jazz na sala, ele olhava para o seu rosto no espelho, tentando reconhecer os seus traços no meio da escuridão, mas viu apenas o vulto de si, um modo não-ver de quem ele era. Assim era o seu inteiro.
Tarcísio era do tipo que fazia da indiferença o seu disfarce. Sempre pronto a fazer brincadeiras quando o ambiente pedia, acostumado a subjugar as suas intenções de ira, de ócio ou qualquer coisa que falasse de sua puberdade. Nem seu cansaço escapava dos acordos alheios e silenciosos de passividade. Havia sempre alguém disposto a discernir isso como algum tipo de charme e, como vivesse cansado, tinha de lidar também com os assédios em momentos improváveis. Começou a ter tédio de tudo, a ponto de ter náuseas. Vomitava nas pessoas, vomitava no escritório, vomitava no carro. Era o pesadelo que ele tinha toda noite, no meio dela. Tudo isso por mágoa de si mesmo, porque se privou do próprio choro, até quando menos devia. Sempre ameno, nunca ele: escuro, caótico.
Pensou nas suas avarias e em como tinha prazer em coisas incomuns. Era bom ser meio exclusivo nisso tudo: gostar de café sem açúcar, de banho gelado e de filmes subjetivos e confusos. Isso era conseqüência de sua imagem incisiva, espessa, que pouco se demovia diante do que normalmente os outros se desesperavam. Sentiu-se soberbo com isso tudo – dava pra ver pelo seu andar – e, por isso, ria-se por dentro. Guardava para si este prazer em ser incoerente e, ao mesmo tempo, se intrigava. As dores que já sentiu na vida ele não anestesiou nem uma sequer. Sentiu-a todas, inteiramente, até exaurí-las. Quis vencê-las pelo seu corpo, a moeda da sobrevivência. Renunciou tudo para provar a si mesmo que venceria, e venceu. Mas as convenções estavam lá. Seduzindo-o.
Suas despedidas eram feitas com sorrisos, um aceno que mais parecia reencontro. Não havia dor, não havia resistência. Despedir-se, de quem quer que fosse, era, para ele, retornar ao lar, voltar para si. Ainda que ele se alegrasse nas pequenas coisas, jamais seria feliz com pouco. Não outra vez. E, por isso, não se importou em perder todos aqueles que um dia foram seus. Porque estar sozinho era ter-se a si. E ele tinha tanto. Não abriria mais as portas do seu mundo para que outros o respirassem. Ou era troca, ou nada. Cansou-se de mesquinharias, de pessoas anêmicas e inseguras. Cansou-se de tolas amenidades, de ameaças e de ofensas feitas baseadas em dúvidas imaturas. Ele queria beber generosidade, servir cordialidade em bandejas. Queria celebrar a boa convivência com as próprias mazelas. Mas para alguns isso era infâmia demais. Rejeitou a idéia de se desfazer diante disso. Ouviria o conselho daquela que, nas horas de perplexidade, não lhe batia no rosto, mas o beijava repetidamente até que ele estivesse pronto a ouvir; Tarcísio, jamais esqueça… elegância nas batalhas.
Ele entrou no chuveiro e sentiu seu corpo sendo limpo, uma leveza que se fazia mesmo na escuridão. Era a desordem que se rompia no fim do dia, dentro dele. Ele estaria pronto para a luz de novo, estar no mundo e ser iluminado por ele, estar nele e sujar-se por ele. Deixou escorrer água pela última vez no cabelo, desligou a o chuveiro e abriu os olhos. Viu que estava ainda mais escuro, mas agora sentiu-se em paz. O barítono ainda cantava jazz ao fundo, que ele passou a acompanhar. Na voz a certeza de que talvez nada mudasse, mas diante do caos – nunca mais – haveria o silêncio como paga.

Foto | Adrianna Williams