
Um relance e ela imaginou cenas. Os dois às gargalhadas preparando o jantar, eles no banho, berros pelo corredor, dedos apontados, brigas e as pazes – ela amava fazer as pazes. Tentou dispersar o pensamento e reprovou a si mesma por tal lapso. Os motivos? Simples. Ponto um: isso; ponto dois: aquilo; ponto três, ponto quatro… tudo concluído antes mesmo de começar a tomar o seu café. Não dariam certo, finalizou ela.
Ele não era bonito. Um tipo inteligente, mas culto mesmo, não era. Garoto de riso fácil, moço de pensamento sério, homem com gosto para o leviano. Ela gostava do tipo. Sentia que com ele seria vida e infância, paga e recompensa. Não precisaria fingir não ser inteligente e, mais do que isso, seria mulher. Amante.
Heloísa queria riscos, mas não tolerava qualquer insegurança. Queria saltar, mas com dois pára-quedas reserva. Queria ter filhos, mas só se fossem comportados. Queria flores, mas as conhecidas, as da estação, as que não lhe dessem alergia. Um saco, eu sei; dizia ela. Mas era assim o seu jeito. Desde pequena. Nunca gostou de brincar com terra, pouco se arriscou na bicicleta, observou mais do que tentou. E lamentava. Quem às vezes não se sente prisioneiro de sua história, de si? Ela sentia.
Arriscou, então, desenhar em sua mente a vida que teria com ele. Um descontrole! Desesperou cada um dos seus planos, colocou a família doida. Iriam interná-la, sedá-la. A mãe perplexa, o pai afoito. Entre um gole e outro, sentiu tremor e prazer, um medo por ter gostado da cena. Se surpreendeu porque, no fundo, ela se divertiu. Gostou de se imaginar assim… por um instante, solta, desgovernada. Ainda mais sendo cúmplice de toda essa força que havia nele, dessa liberdade que não cabe em bolso algum. Ele não se permitiria dominar, pensou ela, tentando se esquivar. Mas isso não seria um problema. Medir forças era uma de suas brincadeiras preferidas. Dele também.
Ele, o desconhecido e o absurdamente íntimo, era o seu avesso. Era a vingança dos clichês e a desforra de toda melosidade que um dia ela prometeu, Nunca terei!, Era aventura demais, respirou fundo e terminou o seu café; Chata era a vida. Chata era ela.
Ele levantou e se aproximou. Pediu uma bebida no balcão, olhou pra ela e a cumprimentou. Ela acenou com a cabeça e, por dentro, tremeu. Porque queria testá-lo, perdê-lo. E como se tivesse conversado com ele a noite toda, olhou-o longamente, tentando desistir dessa inconveniência. Mas não se conteve. Com ar de complacência diante do inevitável, como quem, de joelhos, pede clemência, como servo rendido e vencido, perguntou; E os filhos? E se eles forem rebeldes… Me diz?; Sem mesmo sentar, ele olhou pra ela sentindo o tom do receio. Ele conhecia bem as palavras e, sendo homem, se virava muito bem com os significados que transitavam e se escondiam no silêncio. Pelo que disse, ela entendeu que ele a compreendeu, a conheceu; Sinta a revolta e brigue. Brigue bastante, jogue a culpa na vida e depois tire. Chore sozinha, no ombro do outro, no colo dos pais. Mas viaje e regule a sua vida. Faça terapia. Talvez nada mude, talvez nada piore. Talvez vire livro.
Ela não soube caber em si, e assim se sentiu, como se ali não estivesse. É certo que ainda havia nela bastante atrevimento para continuar e, como se pedisse a ele – retroceda, regresse – continuou; Mas e se a flor for entregue? E se der alergia?; Ele não demorou, foi rápido, certeiro. Que venha a tosse e o espirro, mas antes, seja boba não… receba os beijos, abuse dos carinhos, acolhe o eterno que foi arrancado da terra e que não teve escolha, porque nasceu pra ti, porque sempre foi teu.
Como se pudesse fotografar esse instante, vê-lo, rascunhá-lo, exatamente nesse momento, ele sentiu vindo dela um mundo por construir. E ele mesmo se viu. Tendo o mesmo mundo; e nele estando. Mundo estranho, dela, mas também seu. Ele não soube perguntar, não soube responder. Até chegou a ouví-la dizer, uma, duas, três vezes…; E se o pára-quedas não abrir? E se o pára-quedas não abrir!!?; mas ele não rompeu o seu tempo e nem o seu silêncio, porque não poderia deixar de olhar todo aquele vazio, todo aquele absurdo. Sentiu uma fenda que se abria nele e o fazia invadido ser.
Entre o semblante de dúvida e de poesia, a resposta veio; Se abrace em mim e espere o pouso. Quando a altura sumir, vá para um canto, chore alto toda a vida que um dia teve em desapego e viva como se nunca tivesse tocado a terra firme.
Ele insinuou querer voltar para a varanda e contar tudo para o seu romancista, que o esperava calado. Mas ele preferiu ficar, sentou-se ao lado dela, sentindo-se exausto, perplexo. Decidiu acabar com toda essa resistência em tom certo, algo entre rude e terno, seguro. Resoluto.
Se aproximou, deixou que a distância entre eles sumisse e disse; Se houver chuva, declamo Cruz, canto Saramago, tudo para que fique calmo o teu ouvido e fechado os teus olhos. Se houver frio, preparo teu chá amargo, te cubro, te alivio. Faço valer o risco. Porque vida é mistério e rotina e se o sentimento é sutil – é a certeza que possuo – nada se possui além do desperdício.
Ela sequer continuou com os olhos abertos. Foi como se os seus pés tivessem, enfim, tocado o corpo dele. Como se sua cintura tivesse sido abraçada e, ao peito dele, tivesse encostado o seu ombro. Corpo vivo, caminho do rosto.
Ele voltou para a varanda e Heloísa ficou ali, olhando-o de longe. Irresoluta, diante do seu velho mundo todo refeito em rabiscos. E o amou.

Foto | Pollyana Reis – pollyreis.wordpress.com