GIRASSOL

•dezembro 31, 2009 • 9 Comentários

Como dá de ver,

não sou de outro jeito.

Sou assim mesmo,

de um amarelo que se ralenta

para uma cor meio laranja,

um tanto meio que mal pintada,

um tanto que mal feita,

Minhas folhas são grandes,

pode olhar de perto

mas seja agradável,

nas manchas não repare…

são como eu mesmo

vestígios do que vou vivendo

Nesta minha terra que você vê;

brisa, quando aqui chega

mais parece um pé-de-vento

Porque as chuvas são poucas,

dá de contar até as gotas.

Pois ela e eu, ressecamento

Escassos pelo distanciamento

A lonjura disso tudo aqui é triste de doer

Terra mirrada, você precisa de ver

Se não chega a ferir o rosto,

como paga fica o desgosto.

Dela eu me sinto escravo,

nela sou feito refém,

por isso eu a conheço bem

Sei das suas agruras

E como delas sobrevivo

Mas ainda que seja seca e dura,

Não lhe devolvo ingratidão

Mostrou sua nobreza quanto nem tinha reino,

na sua pobreza, me deu cama, alimento;

Se fez a referência do meu próprio centro.

Por isso, me faça um favor,

não fique a pensar que ela me prende

ainda que os pés sejam do côncavo,

a minha alma pertence ao convexo:

o meu futuro é uma tangente

Minha alma bebe luz, respira amplidão!

Sim, sou eu os meus dois lados,

duas faces de um mesmo momento;

Fico o dia todo assim, longe de mim

correndo para o céu e fugindo desse chão

Todo dia olhando para o sol,

que é o meu espelho de mim

uma boniteza sem explicação

do tamanho maior que qualquer outra invenção

Ele não é muito de falar

porque entra mudo pelo lado de cá

sai calado pelo lado de lá;

Mas é esta a grandeza que rompe o meu olhar

que me atrai, que me conquista

pois sendo quem é,

deixa marcas sem sequer matutar

olho pro seu rosto o dia todo,

como um filho que se enche de encantos pelo pai;

Na espera de um som que vire assunto

de uma conversa que vire afago

de um carinho que alegre o caminho

de um caminho que vire destino

Todo dia identidade

Todo dia imensidão

Ele é a rota do meu momento seguinte

é a morte dos ângulos que me desviam

E enquanto vivo nesta minha pressa

vejo meus olhos em seu rosto;

num passo que não existe sombra,

em busca de uma maior madureza.

Porque giro em direção a essa luz

que é comigo,

que me inclina

E ainda que tudo seja medo,

ainda que haja noite,

ele e eu, os mesmos

Porque enquanto ele gira…

sol vamos sendo.

joaoromova

Iluminar e só. Esse é o meu lema… e o do sol… | Wladimir Maiakovski

RABISCOS

•dezembro 7, 2009 • 8 Comentários

Um relance e ela imaginou cenas. Os dois às gargalhadas preparando o jantar, eles no banho, berros pelo corredor, dedos apontados, brigas e as pazes – ela amava fazer as pazes. Tentou dispersar o pensamento e reprovou a si mesma por tal lapso. Os motivos? Simples. Ponto um: isso; ponto dois: aquilo; ponto três, ponto quatro… tudo concluído antes mesmo de começar a tomar o seu café. Não dariam certo, finalizou ela.

Ele não era bonito. Um tipo inteligente, mas culto mesmo, não era. Garoto de riso fácil, moço de pensamento sério, homem com gosto para o leviano. Ela gostava do tipo. Sentia que com ele seria vida e infância, paga e recompensa. Não precisaria fingir não ser inteligente e, mais do que isso, seria mulher. Amante.

Heloísa queria riscos, mas não tolerava qualquer insegurança. Queria saltar, mas com dois pára-quedas reserva. Queria ter filhos, mas só se fossem comportados. Queria flores, mas as conhecidas, as da estação, as que não lhe dessem alergia. Um saco, eu sei; dizia ela. Mas era assim o seu jeito. Desde pequena. Nunca gostou de brincar com terra, pouco se arriscou na bicicleta, observou mais do que tentou. E lamentava. Quem às vezes não se sente prisioneiro de sua história, de si? Ela sentia.

Arriscou, então, desenhar em sua mente a vida que teria com ele. Um descontrole! Desesperou cada um dos seus planos, colocou a família doida. Iriam interná-la, sedá-la. A mãe perplexa, o pai afoito. Entre um gole e outro, sentiu tremor e prazer, um medo por ter gostado da cena. Se surpreendeu porque, no fundo, ela se divertiu. Gostou de se imaginar assim… por um instante, solta, desgovernada. Ainda mais sendo cúmplice de toda essa força que havia nele, dessa liberdade que não cabe em bolso algum. Ele não se permitiria dominar, pensou ela, tentando se esquivar. Mas isso não seria um problema. Medir forças era uma de suas brincadeiras preferidas. Dele também.

Ele, o desconhecido e o absurdamente íntimo, era o seu avesso. Era a vingança dos clichês e a desforra de toda melosidade que um dia ela prometeu, Nunca terei!, Era aventura demais, respirou fundo e terminou o seu café; Chata era a vida. Chata era ela.

Ele levantou e se aproximou. Pediu uma bebida no balcão, olhou pra ela e a cumprimentou. Ela acenou com a cabeça e, por dentro, tremeu. Porque queria testá-lo, perdê-lo. E como se tivesse conversado com ele a noite toda, olhou-o longamente, tentando desistir dessa inconveniência. Mas não se conteve. Com ar de complacência diante do inevitável, como quem, de joelhos, pede clemência, como servo rendido e vencido, perguntou; E os filhos? E se eles forem rebeldes… Me diz?; Sem mesmo sentar, ele olhou pra ela sentindo o tom do receio. Ele conhecia bem as palavras e, sendo homem, se virava muito bem com os significados que transitavam e se escondiam no silêncio. Pelo que disse, ela entendeu que ele a compreendeu, a conheceu; Sinta a revolta e brigue. Brigue bastante, jogue a culpa na vida e depois tire. Chore sozinha, no ombro do outro, no colo dos pais. Mas viaje e regule a sua vida. Faça terapia. Talvez nada mude, talvez nada piore. Talvez vire livro.

Ela não soube caber em si, e assim se sentiu, como se ali não estivesse. É certo que ainda havia nela bastante atrevimento para continuar e, como se pedisse a ele – retroceda, regresse – continuou; Mas e se a flor for entregue? E se der alergia?; Ele não demorou, foi rápido, certeiro. Que venha a tosse e o espirro, mas antes, seja boba não… receba os beijos, abuse dos carinhos, acolhe o eterno que foi arrancado da terra e que não teve escolha, porque nasceu pra ti,  porque sempre foi teu.

Como se pudesse fotografar esse instante, vê-lo, rascunhá-lo, exatamente nesse momento, ele sentiu vindo dela um mundo por construir. E ele mesmo se viu. Tendo o mesmo mundo; e nele estando. Mundo estranho, dela, mas também seu. Ele não soube perguntar, não soube responder. Até chegou a ouví-la dizer, uma, duas, três vezes…; E se o pára-quedas não abrir? E se o pára-quedas não abrir!!?; mas ele não rompeu o seu tempo e nem o seu silêncio, porque não poderia deixar de olhar todo aquele vazio, todo aquele absurdo. Sentiu uma fenda que se abria nele e o fazia invadido ser.

Entre o semblante de dúvida e de poesia, a resposta veio; Se abrace em mim e espere o pouso. Quando a altura sumir, vá para um canto, chore alto toda a vida que um dia teve em desapego e viva como se nunca tivesse tocado a terra firme.

Ele insinuou querer voltar para a varanda e contar tudo para o seu romancista, que o esperava calado. Mas ele preferiu ficar, sentou-se ao lado dela, sentindo-se exausto, perplexo. Decidiu acabar com toda essa resistência em tom certo, algo entre rude e terno, seguro. Resoluto.

Se aproximou, deixou que a distância entre eles sumisse e disse; Se houver chuva, declamo Cruz, canto Saramago, tudo para que fique calmo o teu ouvido e fechado os teus olhos. Se houver frio, preparo teu chá amargo, te cubro, te alivio. Faço valer o risco. Porque vida é mistério e rotina e se o sentimento é sutil – é a certeza que possuo – nada se possui além do desperdício.

Ela sequer continuou com os olhos abertos. Foi como se os seus pés tivessem, enfim, tocado o corpo dele. Como se sua cintura tivesse sido abraçada e, ao peito dele, tivesse encostado o seu ombro. Corpo vivo, caminho do rosto.

Ele voltou para a varanda e Heloísa ficou ali, olhando-o de longe. Irresoluta, diante do seu velho mundo todo refeito em rabiscos. E o amou.

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Foto | Pollyana Reis – pollyreis.wordpress.com

OS QUATRO DE BEATRIZ

•novembro 26, 2009 • 7 Comentários

Toda noite quando se deitava era a mesma coisa. Beatriz pensava nos seus quatro. Ela revisava o dia enquanto escovava o seu cabelo. Quem encontrou, onde foi, o que pagou. E chegava a calcular a sua rota do dia seguinte. Mas sempre acabava se rendendo e pensando em seus quatro amores. Amores que, sem faltas e sem desperdício, bastariam por toda uma vida, mas que, não sabe bem porque, lá ficaram. Escondidos numa antiga Beatriz, como casulo deixado para trás; antes aconchego, mas agora assim. Deixados. Cada qual com sua partida, cada um com seu tostão.

De fato, teve poucas aventuras, mas criou histórias tão suas, construiu sonhos tão verdadeiros que, hoje, vê, só beijou personagens. Se perguntarem a ela, verão. Não saberá dizer bem quem foi o seu primeiro amor. Porque todos que amou, amou exclusivamente. Eram, portanto, todos eles primeiros. Primeiros-amores, primeiros-eles.

Para Duca, escreveu um livro; para Tiago, deu um filho. O terceiro leu toda a sua história e, o quarto, tratou das cicatrizes.  E talvez aí estivesse o erro do coração de Beatriz. Intenso além do que nele cabia. Começava a amar, mas não demorava e ele já queria ser mais, queria tomar esse lugar que era dela. Tomar-lhe as decisões, ter seu cotidiano. Queria ser gente. Queria sair por aí, ter sua própria alma, escolher com quem viver, discutir, passear. Ter uma própria vida. Mas o fato é que ele estava lá, dentro do peito, fadado a fazê-la viver todo dia e, pior, nela viver. Ficavam os dois  lutando por um tal senhorio. Mas ele é quem sempre vencia. Obrigava-a a abandonar tudo. Ela chorava por semanas, perdia o apetite, até que conseguia voltar a caminhar. Beatriz assim seguia, com olheiras, partindo e amando. Sempre na espera da quietude de ser feliz. Mas coração como aquele não é todo dia que se vê por aí. Queria amar tudo, abundante e inquieto. Tinha um paladar para aperto e ausência, desejo e saudade. Criava um mundo, e, em pouco tempo, estava de partida. Dor incompreensível. Beatriz era uma eremita que tinha em seu corpo sua morada e sua saída.

Não se sabe o fim de toda essa história desmedida. O que se sabe é que Beatriz ainda crê nos seus amores, neles ainda resta um tanto de si. Neles ela se refugia e lá ameniza a saudade que tem. Dela. Por isso a lembrança de boa noite, o reencontro do quebradiço. Beatriz vive o retorno do inteiro abraçando o partido.

joaoromova2

“Sou um ímpeto partido ao meio” | C. Lispector

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Foto | coração de açúcar-em-pedra e colheres | bloomimage/corbis